O sofrimento de Larissa

Mãe, por que… Por que me trata desse jeito? Eu não sabia o motivo. Só sabia que ela desejava o mal para mim e o resto da sua família. Todo mundo tem alguém próximo que admira e pode se apoiar. Aquela pessoa que deveria ser o meu molde e exemplo de sabedoria e compaixão, na verdade era a erva daninha que envenenava meu coração.

Aquela mulher clara, com olhos caídos que pareciam estar sem vida, nunca me elogiava. Para ela, cumprir minhas obrigações era pouco, não que fazer as tarefas de casa não fosse parte do meu dever, mas ela sempre me dizia:

— Larissa!!! Você é péssima em tudo que faz. Limpe os banheiros com mais capricho e as louças também!

Eu me esforçava e tudo que eu recebia de volta eram cobranças e ingratidão. Nem ao menos se preocupava em preparar o almoço e durante a parte da manhã, ás 06:30, lá estava eu levando minha irmã caçula para a escola. Éramos somente eu e a minha pequenina de seis anos. E ainda, sinceramente, meu desempenho na escola pouco importava para minha pseudo-mãe. “Afundar” ou tirar a nota máxima não fazia a diferença para ela. Ela não iria aparecer na reunião de pais de jeito nenhum.

Aquilo tudo ia me entristecendo profundamente e enquanto eu trabalhava em casa para colocar o lar em ordem, eu a via penteando seus cabelos e se arrumando para sair. E dizia:

— Cuide da casa Larissa, volto daqui duas horas.

E esta situação se repetia quase todas as semanas e sempre as quartas-feiras. Meu pai sempre a idolatrava e a obedecia cegamente, se tornando um tolo apaixonado. Até que um certo dia eu resolvi segui-la até um ponto de ônibus que ficava aproximadamente um quilômetro da minha casa, e sem deixar que ela me visse. E lá, testemunhei a grande surpresa: um carro parou e notei que havia um homem dentro do carro. Eles se beijaram e partiram. Era um caso, traição. Minha família estava de fato se deteriorando e tive de voltar para casa com meus olhos marejados.

Foi a partir daquele momento que eu dei início a uma prática nefasta: a automutilação. Minha agonia ia crescendo, pois meu pai não acreditava em mim quando eu tentava lhe dizer o que estava acontecendo. Por outro lado, eu tinha que aturar a falsidade e maus tratos de minha mãe. Para suportar e aliviar a tensão eu me cortava para tentar amenizar meu sofrimento.

Quando eu cheguei a escola, eu estava com uma faixa no antebraço, muitos me perguntavam: O que aconteceu? Está tudo bem? Até que um dia não aguentei mais e desabafei com a minha professora de Português, Júlia. Sempre conversava muito comigo, e nela eu via a imagem materna que não era presente em minha vida. Ela sempre me dava conselhos, e até mediava meu problema com a direção da escola. E nisso, ela me presenteou com um belo livro. A marca de uma lágrima. A leitura passou a ser meu refúgio e porta de saída de um mundo de angústia e solidão.

Portanto, o presente acabou sendo o ponto de partida para me livrar e escapar da tirania interna que me ameaçava, e também da prisão que me torturava por dentro. As coisas começaram a melhorar, e acabei conseguindo ajuda para combater a anemia que me aterrorizava. Já a minha mãe: chegou a dizer para mim que desejava deixar o passado para trás, e não me queria e nem o resto da família. Espero que ela encontre seu caminho e não volte mais.

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