O jogo do “mal”

Certos tipos de jogos e brincadeiras atiçam a nossa curiosidade e imaginação. Além de nos fornecer os poderes para despertar a nossa criatividade eles podem conter a chave para nos levar há um mundo estranho e horripilante. Quem nunca ouviu falar do Ouija, o tabuleiro que supostamente serviria para estabelecer contato com espíritos? Ou a brincadeira do copo que é nada menos que uma variante do Ouija? Com tamanha criatividade, uma nova brincadeira com a mesma finalidade destas duas se tornaria uma febre nas escolas novamente.

A instituição de ensino Maria Mayer estava localizada em um bairro chamado Jardim do Éden. A localização daquele bairro era interessante, pois se situava próximo ao início de uma das principais vias de acesso ao centro de Betim, a Av. Marco Túlio Isaac, no sentido de sua cidade vizinha, Contagem. A escola funcionava em dois turnos: manhã e tarde, com um total de 288 alunos para cada turno. Quando cheguei a esta instituição, no ano de 2015, fui designado para ser professor de matemática do 8º ano, lecionando para três turmas que eram identificadas como 81, 82 e 83. Ficou definido que cada uma delas teria um professor como seu patrono, ou seja, era uma espécie de padrinho da turma, e a classe escolhida para mim foi a 81. O que esperava por mim? O que viria pela frente? Quem seriam os alunos com os quais eu teria de lidar? Este era mais um desafio para alguém que estava em início de carreira.

Naquela classe como em todas as outras, havia os extremos: alunos com forte senso de dedicação como era o caso de Márcia Eduarda, que era uma jovem que sempre fazia os deveres de casa. Diferentemente de certo grupo de 5 ou 6 alunos que não faziam nada, em uma turma com 33 alunos, ela estava lá em sua carteira… Sempre prestando a atenção e cumprindo suas tarefas. Era o tipo de aluna estudiosa, mas longe de ser considerada uma nerd. Bem educada ela nunca desrespeitou seus professores. “Dudinha”, como era conhecida na escola por seus amigos mais próximos, tinha como colega, quase inseparável, Lavínia, que era fisicamente o seu oposto. Enquanto “Dudinha” era loira de 1,60m, Lavínia era alta, quase 1,80m, morena e encorpada para sua idade, sem contar que o que mais chamava a atenção nela eram seus olhos. Eles eram grandes. Motivo pelo qual sofria com as gozações de outros alunos. EntãoJuntamente com Keyla, uma garota extremamente tranquila e que através de sua aparência tímida que se ajustava aos seus 1,65m de uma morenice caracterizada por longos cabelos lisos e escuros que cobriam as suas costas, a dupla Dudinha e Lavínia  formava com ela uma trinca de muita responsabilidade e personalidade. Na faixa dos 13 anos de idade, elas estavam juntas para o que der e vier e também para salvar o resto da turma.

Na outra ponta desse grupo estavam duas figuras instáveis e que eram responsáveis por quase todos os problemas daquela turma. Roberto e Lídia, mais conhecidos como Bob e Lili, poderiam ser considerados como Bonnie e Clyde do 8º ano. Com seus 13 anos de existência, Bob convivia com uma sina muito triste, era um jovem que não tinha contato com a mãe, e vivia sobre as rédeas da avó. Baixinho, 1,65m, negro, magro, cabelo a base de gel, falava muito durante as aulas. Lili, a sua companheira era 15 centímetros mais alta, forte fisicamente, negra de cabelos longos e ondulados, gostava de cantar um funk pesado, durante a aula. Sendo um ano mais velha que o seu parceiro, Lili morava com os pais, mas eles pareciam não ser muito exigentes com a filha em matéria de estudo. Imagine dois leões em uma jaula e você no meio deles, prestes a ser devorado… A situação era essa quando os dois permaneciam dentro da classe. Com eles em sala a tranquilidade desaparecia literalmente.

O dia estava bastante ensolarado e com a temperatura beirando os 30ºC. A Escola Maria Mayer começava mais um dia no turno da manhã, a partir das 7 horas. O ar estava meio tenso entre as instalações da escola, se ouvia o som das árvores sacudidas pelo vento. No segundo andar da escola, eu estava em minha primeira aula, quando se ouvia o barulho da conversinha, entre os alunos:

—  Você já brincou de Charlie Charlie? Pergunta Bob.

—  Fiquei sabendo, mas ainda não joguei diz Lili.

Os minutos passam e a dupla dinâmica se junta a Kelvin, um garoto alto, negro e bem magro, e que chamava a atenção por dois motivos: sua gagueira, e por deter o título de melhor amigo de Bob – sendo essa a razão por estar sempre envolvido em enrascadas. Estranhamente os três planejam algo, quando acaba o primeiro horário, eles se armam para enfrentar o desconhecido. Ao chegar à sala de aula da turma 81, novamente no terceiro horário, lá estava o trio em volta de uma carteira, e com uma folha de papel. No meio desta folha tinham desenhado uma cruz de caneta formando quatro retângulos, e que de uma forma alternada estava escrito neles as palavras sim e não, e com dois lápis sobre esta cruz desenhada. Então eu ouço de um deles:

— Charlie Charlie você está aí?

Então eu pensei? Isso é uma espécie de ritual? Logo Keyla me diz:

— Não professor, isso é uma brincadeira para invocar um espírito chamado Charlie. Então eu disse:

— De onde saiu isso? Logo pedi para a brincadeira parar. Ao me virar para o quadro para começar a aula, eis que surge o primeiro evento fantástico daquele dia. A porta da sala que estava escorada conseguiu se fechar sozinha. Ao tentar continuar, Lili que estava com a cabeça abaixada na carteira falou com uma voz que habitualmente não era a sua dizendo:

— É melhor você parar.

— Por que Lídia? Perguntei.

— Porque todo mundo pode se machucar.

— Como assim? De repente, ela caiu desacordada por um instante, e algumas cadeiras começaram a se arrastar sozinhas, e então, todo mundo começou a correr em direção ao quadro. Em meio a gritos de alunos, eu tentava manter a calma e alguns afirmavam que ao olhar para as janelas avistavam um homem completamente vestido de preto. Outros em pânico começaram a sentir mal estar. Um efeito estranho que acontecia ali eram as luzes que piscavam rapidamente por um minuto e depois se apagaram. Aquilo parecia ser o que chamam de histeria coletiva, ou então, algo sobrenatural… Era difícil de acreditar no que eu e os outros víamos ali. Lili estava fora de controle e o pior, Bob se desesperou para abrir a porta. Kelvin vendo o desespero de seu amigo correu para ajudá-lo, mas mesmo com seus 1,78m, e os 13 anos de juventude de cada um, não reuniram forças suficientes para abri-la. Para piorar nossos celulares não funcionavam. Chamei Lavínia e Kelvin para segurarmos Lídia que de repente começou a se contorcer no chão. Bem na hora, a porta se abriu e era o nosso diretor Gélson que adentrou o recinto para nos salvar. Quando saímos da sala o que se via era desolador. Gélson um homem negro, estatura média, experiente na docência, já com a cor dos seus cabelos se rebelando por causa da idade e o tempo de profissão, e que sabia lidar muito bem com muitos alunos problemáticos, se viu em uma situação difícil. Como se explicaria toda aquela situação? Havia nos corredores meninos correndo por todos os lados e outros no chão dos corredores amparados por funcionários e colegas.  Entre meninos e meninas alguns diziam: 

— Eu vi um homem de capa preta me chamando.

E outros falavam: — eu também vi um vulto negro.

Este era o assunto que predominava naquela escola. É fato que aconteceu algo muito estranho na sala em que eu estava, e que outros alunos de outras salas também teriam jogado o famigerado jogo, “O desafio de Charlie Charlie”, e após isso, a histeria teria começado.

Na segunda-feira, dia um de junho, eu estava de folga e na escola ocorreu uma reunião com pais de alunos e a direção escolar, sem realização de aulas. Foi acordado que nenhum aluno poderia realizar atividades lúdicas que não faziam referência a prática educacional dentro dos limites da escola. 

Na terça-feira, todos tentavam retomar a vida normal, mas o fato acontecido foi bem marcante e com ele se iniciava o mês de junho.

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